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Pregadores da Sé: os “anônimos” que impactam milhares com a Palavra de Deus

Pastores dividem o mesmo 'púlpito' no centro de SP e realizam diariamente cultos ao ar livre Vai começar: “Silêncio! Silêncio!”, ped...

Pastores dividem o mesmo 'púlpito' no centro de SP e realizam diariamente cultos ao ar livre

Vai começar: “Silêncio! Silêncio!”, pede o homem. Ele adentra o quadrilátero formado pelo caminho natural de pedras encrustadas no chão e começa com uma veemência que crescerá de intensidade ao longo das próximas horas. As pessoas vão se juntando.


“… Jesus sempre pregou a moderação, o amor, a paz. Porque Jesus nem sabia, irmão, que uma nação gananciosa estaria se destruindo a si mesma. O Diabo não precisa destruir ninguém, irmão, o ser humano está destruindo a si mesmo com a sua própria ganância. O homem mata por causa de R$ 100. O Brasil, irmão, se tornou um país refém do pecado.” Gesticula, se contorce, dobra os joelhos, caminha de um lado a outro daquele perímetro num bailado sincopado, de Bíblia num punho e toalha de rosto no outro.

A voz é tonitruante, firme, sem usar microfone. O cenário é a praça da Sé, marco zero da cidade de São Paulo, por onde circulam milhares de pessoas todos os dias. É o umbigo paulistano. Ao fundo, emoldurando a sua figura, está a Catedral da Sé, sede da Arquidiocese de São Paulo, pertencente à Igreja Católica, com sua arquitetura neogótica e duas torres que tocam o céu azul de outono. Os participantes da pregação são em sua maioria transeuntes, gente que dá uma paradinha para ouvir a palavra de Deus ou por curiosidade, entre um afazer e outro, e também desempregados, moradores de rua, usuários de álcool e de drogas.

O homem da pregação de agora é Edvaldo da Silva, 45, pastor da igreja pentecostal Assembleia de Deus, Ministério Novo Templo. Casado e pai de dois filhos, mora no extremo da região sul de São Paulo numa casa de três cômodos que diz ainda estar pagando. Ele vem para a Sé pregar dia sim, dia não, após tomar dois ônibus, trajeto que pode levar mais de duas horas. “Prego na praça da Sé há mais de 20 anos. Faço o trabalho por amor a Cristo”, explica. Além das doações que pede em intervalos e ao término de sua longa pregação (são 3 horas e 50 minutos de culto), entregando pequenos envelopes encarnados, Edvaldo diz viver também de trabalhos avulsos de funilaria, pintura, mecânica. “O que pintar a gente faz.” “O amor que tenho por Jesus me chamou. Senti necessidade”, relembra. O chamado foi aos 19 anos, num dia que ele relata como revolucionário de tudo o que viria depois. “Um anjo apareceu para mim com o cabelo todinho de ouro. Difícil falar isso, porque as pessoas não creem, mas apareceu para mim com o cabelo todinho de ouro e ele fez assim com a mãozinha [gesticula, repousando a cabeça sobre a mão]. Eu não entendi [na hora], depois que me converti, entendi: ‘Descanse em paz’. Porque quem está em Cristo descansa em paz.”

Ele diz perceber a presença viva de Cristo aqui, agora: “Teve outras coisas que vi também que me levaram a saber que Jesus Cristo está vivo, ele não está morto. Ele se revela para quem ele quer, para quem ele ama, para quem ele tem uma chamada. Para cada pessoa vai ter um compromisso pessoal com Jesus. Comprovou que está vivo, não mostrando que ele está em pessoa, mas em obras. Porque há muitas formas de mostrar que está vivo sem mostrar o seu corpo”.

A motivação que o leva à Sé, diz, é ver as “pessoas se arrependendo de seus atos, dos maus caminhos pelo simples fato de conhecerem o nome de Jesus Cristo”. “Crer. A Bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus.”

Testemunhos

Da sua longa pregação na Sé, Edvaldo destaca uma passagem em especial. Foi o caso do “Fedor”, um morador de rua que todos evitavam devido ao mau cheiro, fazia as necessidades nas calças. Era ele chegar que todo mundo se afastava, e a pregação ficava sem ninguém para ouvir. Um dia, contudo, o “Fedor” chegou, afastando todo mundo como de costume, mas parecia disposto ao recomeço: “Ele levantou a mão assim: ‘Eu quero aceitar esse Jesus hoje. Esse Jesus amoroso que você está apresentando, que transforma a vida, que tira das drogas’. Aí ele chegou ali, levantou a mão e, quando estava pegando o saco de lixo que levava nas costas, desceu aqui para baixo, e Deus falou no meu coração: ‘Hoje é a última vez que você vê esse homem assim'”, conta. “Passou um ano, ele apareceu de novo aqui, mas agora de terno, gravata, com o melhor perfume, cabelo bem cortado, com a pasta social do lado. E ele entrou no meio do culto e falou: ‘Quero te dar um abraço’. Falei: ‘Quem é você?’. ‘Eu sou aquele camarada que colocaram o apelido de ‘Fedor’. Sou eu, pastor, hoje estou convertido, minha mulher me aceitou de volta, estava no mundo das drogas, estou trabalhando e eu vim aqui só para te dar um abraço’. Isso marcou. E isso faz a gente continuar pregando.”

Mais pregadores

Outro pregador, o pastor José Carlos Pereira dos Anjos, 40, se converteu em 1988, pela igreja pentecostal Deus É Amor. A igreja proibia o porte de arma de fogo pelos fiéis e por isso ele abdicou da carreira como policial militar

No dia em que conheci Jesus, a minha vida mudou. Fiquei só três anos na Polícia Militar. Pedi baixa para pregar o Evangelho. Hoje tenho irmão que é tenente-coronel e outro irmão que é coronel da PM. Quando tomei essa decisão, eles ficaram assustados: ‘Como você vai deixar uma carreira para falar de Deus, pregar o Evangelho?’. Mas quem me chamou é fiel, quem me chamou é o Criador dos Céus e da Terra, que me sustenta até o dia de hoje”, defende. O pastor Carlos, como o chamam na Sé, onde prega há mais de 20 anos, deixou a Deus É Amor e é hoje independente, sem filiação a nenhuma igreja. Vive exclusivamente das doações que pede em intervalos e ao fim de cada culto. Ele vai à Sé em dias alternados e prega sempre à tarde, exatamente no mesmo quadrilátero de que acabou de sair o pastor Edvaldo. Vive em casa própria em Diadema, no ABCD paulista, com a mulher e os dois filhos. Tem um automóvel Corolla ano 2010. Tornou-se crítico feroz das grandes igrejas, católica ou evangélicas, por identificar exploração mercantilista. “Não sou rico, não sou bem de vida, não prego o Evangelho para ficar rico, não falo de Deus para me promover. Quero levar essa mensagem de vida, essa mensagem transformadora, que só quem transforma o homem é Deus. Só quem perdoa pecado é Jesus Cristo. Jesus não morreu para dar riqueza para ninguém, como muitos pastores, muitas igrejas estão pregando. Na verdade, quem só está comendo a carne seca são as lideranças. Por que qualquer um quer abrir igreja, irmão? Porque é uma fonte lucrativa.”

Diz que Deus lhe confiou uma missão nobre: “Me chamou desde o ventre da minha mãe, fui escolhido para exercer essa função que hoje exerço, que é pregar aqui numa praça cheia de bandido, de ladrão, de prostituta, de um-sete-um, cheia de droga. A misericórdia de Deus é tão grande que me escolheu para vir aqui anunciar o Evangelho para essas pessoas. Pergunta se esses pastores que estão dentro dessas igrejas luxuosas vão vir aqui. Não vêm, porque lá está cheio de segurança, cheio de guarda-costas, guardando os patrimônios que eles adquiriram em nome da fé. Eu não tenho guarda-costas.”

O culto ao ar livre pregou também das suas, violentamente. Foi assim numa quarta-feira de 2014, quando o pastor Carlos foi atacado por um homem que assistia à pregação: levou uma facada no pescoço e quase morreu. “A GCM [Guarda Civil Metropolitana] me socorreu e o médico me disse: ‘Pastor Zé Carlos, por um pouco não pegou a sua veia principal, e você não poderia estar resistindo’. Mas foi a mão de Deus que não deixou pegar a minha aorta [artéria principal do corpo humano]. Levei 20 pontos no pescoço e na sexta-feira já estava aqui pregando de novo”, conta. “Eu não posso deixar de pregar o Evangelho. Tirar a liberdade de eu pregar o Evangelho é a mesma coisa que tirar peixe de dentro do aquário, ele vai morrer por falta de oxigênio. Eu preciso de falar de Deus, eu preciso de transmitir essa minha fé sem exigir nada das pessoas, porque Jesus, quando esteve aqui na Terra, não cobrou para fazer milagre. Nem rico ele era, era pobre, mas, através de sua pobreza, aqueles que creem se tornam ricos. Ricos para um dia morar na eternidade.” Sobre as doações que pede (cita durante o culto ajuda para o transporte, para o almoço), o pastor diz não querer explorar nem enganar ninguém: “As pessoas dão de livre e espontânea vontade. Não é eu chegar aqui dizendo que essa toalha [que tem na mão e usa no culto, com a palavra “vitória” nela bordada] é Deus, que essa toalha aqui faz milagre e eu vou vender essa toalha por R$ 200 porque faz milagre. Isso é mentira, meu irmão, isso aqui é balela. Não é eu chegar aqui dizendo: ‘Você tem que dar R$ 100 para Deus, porque Deus vai te dar R$ 200′. É uma troca de favores. E Deus não é agiota”. Seu culto é dos mais agitados e concorridos na Sé. Sua figura alta, de quase 1,90 m, sua voz grave e potente e a gesticulação firme atraem. Ele explica o que movimenta dentro dele, descrevendo o estilo: “Eu não vim aqui passar radiação negativa. Eu estou aqui para representar uma inspiração divina. Não posso chegar aqui pregando desmotivado. Eu tenho que chegar aqui, meu irmão, com a minha autoestima lá em cima, porque acima de mim existe Deus, que vai me inspirar para levar essa mensagem aos corações das pessoas”, afirma.

Na parte inferior da praça, para o lado que vai dar no Pátio do Colégio, está o pastor Arnaldo de Albuquerque Melo, 75, o mais antigo pregador da Sé em atividade: há 40 anos “segurando culto”, como ele diz. “Quem funda o trabalho é aquele que segura o culto. Porque aquele que chega aqui, prega e desaparece, esse aí nunca pode ser o primeiro. Tenho aguentado as consequências, porque Jesus aguentou tudo da humanidade e não desistiu. Até hoje estou segurando. Tenho sido ameaçado de morte, já botaram um [revólver] 38 nas minhas costas, disseram para o povo: ‘Vamos matar ele’. E o povo ficou com medo, aí, quando puxava o gatilho, não saía nada, quando levantava para cima, o tiro saía. Graças a Deus”, conta.

Trajando terno e gravata, ele coordena os trabalhos locais, que incluem outros pastores, num ministério independente, sem ligação com nenhuma igreja, que denominou de Ide por Todo Mundo. Uma espécie de igreja informal em que ele diz que todos são iguais, “sem um tubarão comendo os outros”, como diz ver nas outras igrejas. Viúvo, morando com a segunda companheira e pai de três filhos, Arnaldo relembra o começo e a conversão: “Eu era um mundano, não conhecia a verdade. Passei pela primeira vez na praça da República [também no centro de São Paulo] e ali tinha um pregador. Fiquei curioso para saber o que ele estava falando, porque eu nunca tinha ouvido ninguém falar de Jesus. Falei: ‘Quero ver aonde ele quer chegar’. Aí chegou a hora que ele disse: ‘Quem quer se entregar para Jesus?’. Eu fui o primeiro que pulei na roda. Me rendi para Cristo. Quando saí dali, saí outra pessoa. Porque a Bíblia diz: ‘Quem está em Cristo nova criatura é'”, ressalta. A audição do chamado, com a descoberta da direção, se mostraria um caminho difícil, hoje reconhece. “Deus tocou meu coração para eu abrir um trabalho aqui, mais de 40 anos atrás. Depois de que o camarada vem para a verdade, vem muita perseguição. Para entrar no Céu, o preço é muito caro. Bem que Jesus falou. E eu tenho pagado esse preço.”

Religião é também política na Sé e não raro seus cultos ao ar livre tomam o caminho do debate cívico, confirmando a vocação da praça para as grandes (e pequenas) manifestações populares por direitos. Um homem interpela o pastor Edmilson Roque da Silva, 47, da Assembleia de Deus (Ministério do Belém), num intervalo da pregação que ele comanda na praça, junto com outros fiéis da igreja. “O problema do Brasil é social ou espiritual?”, pergunta, para o próprio homem responder: “Para mim, é social”. E começa o debate. Para o pastor, entretanto, a questão do Brasil “é só espiritual”. “Você conhece Abraham Lincoln [presidente dos Estados Unidos de origem batista (cristã) que aboliu a escravidão e reunificou o país após a Guerra de Secessão]? Pois no dia em que os brasileiros forem cristãos como nos Estados Unidos, aí o Brasil vai para a frente, vira país de primeiro mundo.” Rebate o homem: “Me apresente algum senador, algum político evangélico do Brasil que trabalhe em função da nação? Todos estão na corrupção, querendo botar os filhos deles na política também”.

O pastor quer falar, o homem continua, e então Edmilson vira-se, para partir: “O senhor só quer falar, não quer ouvir, não quer dialogar e eu gosto do diálogo”. E retorna para dar continuidade ao culto, para a tarefa de “salvar almas através da palavra de Deus e de Jesus”.

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